21 de dezembro de 2025

Da impossibilidade de se manter neutro

Lisboa, 1938. O regime salazarista já mostrava, aos poucos, a que veio, a Alemanha e a Itália já totalitárias e a Espanha em franca guerra civil. Pereira, jornalista, católico, viúvo, obeso e responsável pela editoria de cultura de um pequeno jornal, Lisboa, tenta permanecer apolítico, porque aprendera, em Coimbra, onde se formou, que a literatura é tudo o que existe. Pereira é acometido por uma reflexão repentina sobre a morte: talvez pela doença cardíaca que piora, talvez pelo diálogo que tem constantemente com o retrato da esposa falecida, talvez pelo cheiro de morte que contaminava a Europa, talvez pelo artigo acadêmico, escrito por um jovem filósofo e que lhe chegou às mãos, em que este é o tema.

Decide, então, entrar em contato com o jovem, Monteiro Rossi, português de origem italiana. O primeiro encontro, em uma festa da juventude salazarista, põe Pereira em alerta. Porém, o jornalista logo descobre que Monteiro Rossi lá estava só porque fora pago para fazer uma apresentação musical. Descobre também que o jovem estava apaixonado por uma moça que conheceu na universidade, Marta, e que estava precisando de dinheiro. Pereira lhe propõe que escreva os necrológios de escritores famosos, a serem arquivados e aproveitados oportunamente. Gostaria de um necrológio de Bernanos, escritor católico francês, mas Monteiro Rossi decide lhe enviar um necrológio de Garcia Lorca, escritor espanhol e homossexual, cuja misteriosa e polêmica morte é atribuída ao regime franquista.

Nos vários textos que Monteiro Rossi entregaria a Pereira, a mesma frustração do jornalista: a impossibilidade de desvincular a morte da política. Ainda que insatisfeito com a incapacidade do jovem filósofo em tratar a morte como assunto desvinculado da política, Pereira recorrentemente lhe paga os textos e os arquiva. Sem saber explicar com precisão os motivos que o levam a agir de maneira diferente àquela que pensa, Pereira suspeita estar em crise. Monteiro Rossi e Marta, sua namorada, vão paulatinamente envolvendo Pereira no movimento de resistência ao regime franquista em Portugal e ele, ainda que preso a suas antigas resoluções e tentando resistir, ajuda os jovens.

Por sugestão de seu médico e com seu conflito interno entre a pretensão de permanecer apolítico e as ações que o mergulham involuntariamente na vida política da Europa dos anos 30, Pereira parte para um hotel-spa próximo a Lisboa, onde conhece o doutor Cardoso. Entre os vários diálogos sobre a saúde do jornalista, um é revelador. O médico lhe apresenta uma teoria: a alma humana, diversamente do que afirma o catolicismo, não é una, mas é, em verdade, uma confederação de entidades sobre a qual emerge uma, a alma que se manifesta e que seria uma síntese dos conflitos internos de uma pessoa. Doutor Cardoso sugere que o "eu hegemônico" de Pereira esteja mudando, após um período de erosão do antigo "eu hegemônico", e que nada poderia ser feito a não ser aceitá-lo. A nova alma de Pereira é revolucionária, mas ele ainda não pode aceitar. Questiona, então, doutor Cardoso sobre o que seria de sua história, ao que o médico responde que só lhe resta processar o luto, "deixar de frequentar o passado e buscar frequentar o futuro".

O conflito interno de Pereira se acentua quando uma conversa com o garçom do Café Orquídea, onde grande parte das cenas se desenrola, revela que até mesmo Bernanos, o escritor francês católico, conservador e admirado por Pereira, publicara um texto denunciando a carnificina promovida por Franco na Espanha. Para além disso, Pereira descobre que mesmo o padre António, antigo amigo e confessor, também tinha um posicionamento claro sobre a onda de fanatismo que assombrava a Europa.

Completamente cercado por uma sociedade dividida, Pereira permite que sua alma hegemônica prevaleça. O ponto alto da narrativa ocorre quando Monteiro Rossi, que estivera foragido no Alentejo, retorna ao apartamento de Pereira em busca de refúgio. É em um dia que ambos estão nos apartamento que três policiais batem à porta. Os dois brutamontes se dirigem ao quarto onde Monteiro Rossi se acoitava enquanto o chefe mantém Pereira na sala sob ameaça. Quando se retiram, Pereira se dirige ao quarto: Monteiro Rossi estava morto.

Em um lance de coragem inédita para uma personagem que desde o início quis se manter alheio à política, Pereira escreve um texto denunciando em detalhes o que ocorre em seu apartamento. Astuciosamente pede para que doutor Cardoso se passe por um major da censura e consegue que seu texto seja publicado no Lisboa, em uma época em que as atrocidades e perseguições promovidas por Salazar ainda permaneciam desconhecidas. De posse de um dos passaportes falsos que Monteiro Rossi deixara em seu apartamento, Pereira foge,

Um romance que, com seu tom protocolar e com temática grave, assume, por vezes, um tom cômico, demonstrando a incongruência que pode existir no enredo de uma vida. A repetição da fórmula "afirma Pereira que..." isenta o narrador de qualquer acusação de intervencionismo e aproxima a narrativa de uma linguagem ora de relato judicial ora de sessão de psicoterapia ora de notícia policial. A opção por essa forma entra em contato com o conteúdo, simultaneamente político e psíquico. É a impossibilidade, ainda que inconsciente, de se permanecer neutro em situações políticas que exigem posicionamento claro. É a alma que se ajusta às exigências da História.

TABUCCHI, Antonio. Afirma Pereira. Tradução de Roberta Barni. São Paulo: Estação Liberdade, 2021.

5 de janeiro de 2025

"Será possível que o amor também esteja contaminado por essa angústia e ambição?"

A questão central da filosofia, segundo Camus, é o suicídio. Porém, antes disso, para poder responder se o suicídio é, de fato, um tema filosófico (ou se deveria receber somente um questionamento no campo da psicologia), a pergunta de base é "existe metafísica?". O mundo é tão somente aquilo que se revela a nossos olhos ou há um submundo, uma realidade oculta, uma verdade subjacente que o influencia e que nos influencia? 

O segundo romance de Sándor Márai que comento aqui é Divórcio em Buda e gira em torno de um juiz, Kristóf Kömives, filho da decadente aristocracia húngara do entre-guerras, responsável por julgar casos de divórcio. Na agenda do dia seguinte, o processo referente ao divórcio de Imre Greiner e Anna Fazekas: ele, médico e um antigo amigo da escola; ela, uma mulher com quem Kristóf teve um affair no passado. 


Uma longa digressão, que ocupa metade do romance, passeia pelo passado de Kristóf e desenha o homem racional e conservador que se tornou, personificado na parte mais antiga da capital húngara, Buda. Para ele, o casamento é indissolúvel, um pensamento profundamente paradoxal com a profissão que exerce: aquele que deve autorizar, diante da lei, a separação de duas pessoas. Sua mãe abandonou a família para viver com outro homem; seu pai fechou-se, e a criação dos filhos ocorreu de modo distante e impessoal; os anos no colégio católico; o ingresso no meio judiciário, sob a sombra da fama do pai. Rígido, severo e inflexível, busca sempre julgar de modo impessoal. Apesar de externamente ser convencional, Kristóf tem inquietações sobre a profissão, sobre a esposa e (paradoxalmente) sobre o convencionalismo que rege as aparências das sociedades modernas, nas quais as respostas já estão dadas antes das perguntas, porque a previsibilidade matou a espontaneidade. A situação política da Hungria, parte do antigo Império Austro-Húngaro, retalhado após derrota na Primeira Guerra, é o pano de fundo condizente com a melancolia que atravessa as personagens.

O meio do romance dá uma guinada extraordinária. Ao retornar para casa em companhia da esposa, Hertha, a empregada avisa que um homem está à espera, na sala. O casal se irrita com a entrada de um desconhecido. Kristóf vai ao cômodo onde está o "visitante": é Imre Greiner, que veio confessar que assassinou Anna Fazerkas na noite anterior. O romance, então, se torna um longo monólogo, em que Imre, reconstrói todo o relacionamento que construiu com Anna. 

Os dois se casam e vivem segundo as convenções esperadas de qualquer casal. Um incômodo, porém, corrói a alma de Imre e contamina o casamento: o médico sabe que, embora a relação seja amistosa, que haja amor e reciprocidade, há algo em Anna que ele não pode alcançar; seu desejo é possuí-la por completo, mas um indizível detalhe não lhe permite estar por completo, porque sente que esse mesmo detalhe impede que Anna também esteja por completo. O casamento fica insustentável e Anna sai de casa. Seis meses longe e o retorno ocorre quando da fixação da data em que o casal deve comparecer ao tribunal para por fim ao matrimônio. Anna volta a Budapeste e, na noite anterior, propõe um encontro com Imre. No longo diálogo, Anna revela que o período de solidão lhe permitiu ver que esteve durante todos esses anos, dez ao todo, presa a Kristóf, de quem recebeu um chamado posteriormente engolido pelos convencionalismos da vida dita normal. Era esse o indizível detalhe que a impediu de se entregar por inteiro. 

Ao buscar Kristóf às vésperas do julgamento que não mais aconteceria, Imre quer constatar se ele também recebeu esse chamado. O duro diálogo entre os dois antigos amigos poderia revelar duas verdades: a primeira é que a vida que Kristóf construiu com Hertha, os filhos, as obrigações sociais seriam também meros fantasmas impostos por determinações externas, assim como foi o casamento de Imre e Anna; a segunda verdade, aquela que Imre está efetivamente perscrutando, é a existência de uma realidade oculta, um submundo, uma verdade subjacente que influencia e que nos influencia. Se Kristóf responder "sim", que ele também sonhava com Anna nestes dez anos, que esse também era ou é um incômodo indizível em sua relação com Hertha, estaria comprovado que o mundo material, racional, duro e objetivo não é tudo o que existe. 

Kristóf diz que sim. Ele também não pôde se esquecer de Anna neste tempo. 

MÁRAI, Sándor. Divórcio em Buda. Tradução de Landislao Szabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.