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5 de janeiro de 2025

"Será possível que o amor também esteja contaminado por essa angústia e ambição?"

A questão central da filosofia, segundo Camus, é o suicídio. Porém, antes disso, para poder responder se o suicídio é, de fato, um tema filosófico (ou se deveria receber somente um questionamento no campo da psicologia), a pergunta de base é "existe metafísica?". O mundo é tão somente aquilo que se revela a nossos olhos ou há um submundo, uma realidade oculta, uma verdade subjacente que o influencia e que nos influencia? 

O segundo romance de Sándor Márai que comento aqui é Divórcio em Buda e gira em torno de um juiz, Kristóf Kömives, filho da decadente aristocracia húngara do entre-guerras, responsável por julgar casos de divórcio. Na agenda do dia seguinte, o processo referente ao divórcio de Imre Greiner e Anna Fazekas: ele, médico e um antigo amigo da escola; ela, uma mulher com quem Kristóf teve um affair no passado. 


Uma longa digressão, que ocupa metade do romance, passeia pelo passado de Kristóf e desenha o homem racional e conservador que se tornou, personificado na parte mais antiga da capital húngara, Buda. Para ele, o casamento é indissolúvel, um pensamento profundamente paradoxal com a profissão que exerce: aquele que deve autorizar, diante da lei, a separação de duas pessoas. Sua mãe abandonou a família para viver com outro homem; seu pai fechou-se, e a criação dos filhos ocorreu de modo distante e impessoal; os anos no colégio católico; o ingresso no meio judiciário, sob a sombra da fama do pai. Rígido, severo e inflexível, busca sempre julgar de modo impessoal. Apesar de externamente ser convencional, Kristóf tem inquietações sobre a profissão, sobre a esposa e (paradoxalmente) sobre o convencionalismo que rege as aparências das sociedades modernas, nas quais as respostas já estão dadas antes das perguntas, porque a previsibilidade matou a espontaneidade. A situação política da Hungria, parte do antigo Império Austro-Húngaro, retalhado após derrota na Primeira Guerra, é o pano de fundo condizente com a melancolia que atravessa as personagens.

O meio do romance dá uma guinada extraordinária. Ao retornar para casa em companhia da esposa, Hertha, a empregada avisa que um homem está à espera, na sala. O casal se irrita com a entrada de um desconhecido. Kristóf vai ao cômodo onde está o "visitante": é Imre Greiner, que veio confessar que assassinou Anna Fazerkas na noite anterior. O romance, então, se torna um longo monólogo, em que Imre, reconstrói todo o relacionamento que construiu com Anna. 

Os dois se casam e vivem segundo as convenções esperadas de qualquer casal. Um incômodo, porém, corrói a alma de Imre e contamina o casamento: o médico sabe que, embora a relação seja amistosa, que haja amor e reciprocidade, há algo em Anna que ele não pode alcançar; seu desejo é possuí-la por completo, mas um indizível detalhe não lhe permite estar por completo, porque sente que esse mesmo detalhe impede que Anna também esteja por completo. O casamento fica insustentável e Anna sai de casa. Seis meses longe e o retorno ocorre quando da fixação da data em que o casal deve comparecer ao tribunal para por fim ao matrimônio. Anna volta a Budapeste e, na noite anterior, propõe um encontro com Imre. No longo diálogo, Anna revela que o período de solidão lhe permitiu ver que esteve durante todos esses anos, dez ao todo, presa a Kristóf, de quem recebeu um chamado posteriormente engolido pelos convencionalismos da vida dita normal. Era esse o indizível detalhe que a impediu de se entregar por inteiro. 

Ao buscar Kristóf às vésperas do julgamento que não mais aconteceria, Imre quer constatar se ele também recebeu esse chamado. O duro diálogo entre os dois antigos amigos poderia revelar duas verdades: a primeira é que a vida que Kristóf construiu com Hertha, os filhos, as obrigações sociais seriam também meros fantasmas impostos por determinações externas, assim como foi o casamento de Imre e Anna; a segunda verdade, aquela que Imre está efetivamente perscrutando, é a existência de uma realidade oculta, um submundo, uma verdade subjacente que influencia e que nos influencia. Se Kristóf responder "sim", que ele também sonhava com Anna nestes dez anos, que esse também era ou é um incômodo indizível em sua relação com Hertha, estaria comprovado que o mundo material, racional, duro e objetivo não é tudo o que existe. 

Kristóf diz que sim. Ele também não pôde se esquecer de Anna neste tempo. 

MÁRAI, Sándor. Divórcio em Buda. Tradução de Landislao Szabo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

19 de maio de 2024

Almas de margens opostas jamais se encontram verdadeiramente


Hungria, 1940. Henrik é um aristocrata não somente velho, mas envelhecido pelo tempo, pelas guerras e revoluções que presenciou e por uma espera. Ha 41 anos, ele espera poder esclarecer os fatos de um dia de junho de 1899. De origem nobre, sua linhagem e seus antepassados já haviam escrito seu destino: tornou-se um general disciplinado e obediente, próximo do imperador da Áustria-Hungria, de quem seus pais foram inclusive anfitriões.


É na escola de oficiais que Henrik, ainda adolescente, conhece Konrad, também fidalgo, ainda que de família decadente, que se desdobra em esforços além do limite para manter o filho em contato com a nobreza austríaca. Quando seu amigo é apresentado a seu pai, durante uma visita à família, o pai o adverte: “Konrad não é um soldado como nós”. A esse alerta, o pequeno Henrik não presta muita atenção, talvez por não tê-lo entendido completamente. Durante essa mesma visita, Henrik observa sua mãe e seu amigo Konrad embebidos pela música que tocam no piano. A música sempre o entediou muito: jamais compreendeu como algo tão abstrato pudesse comunicar o que quer que fosse.


Os anos passam, os amigos permanecem juntos, em caçadas e nas fúteis atividades da vida aristocrática. Henrik casa-se com Krisztina, mulher que também possui uma alma mais sensível às sutilezas, antípoda do espírito cartesiano e metódico de Henrik. 


Em uma manhã, durante uma caçada, Henrik observa que Konrad aponta-lhe a arma. Espera, sem entender, que o tiro lhe acerte a cabeça. Konrad, porém, recua e, sem nada dizer, retira-se. Henrik retorna à casa e encontra Krisztina surpresa. Surge, então, uma desconfiança. Na mesma noite de 1899, Henrik vai à casa de Konrad e descobre que o amigo fugira. Krisztina chega em seguida e apenas diz: “Era mesmo um covarde”. Daí em diante, o aristocrata tranca-se em uma ala de seu castelo, não se encontra mais nem com Krisztina, nem com Konrad, de quem ele deixa de ter notícias por 41 anos. Passam-se duas guerras mundiais, Krisztina morre. O isolamento de Henrik, entretanto, permanece, à espera de que Konrad em algum momento retorne para esclarecer o fatídico dia. 


Eis que o dia chega e os dois velhos encontram-se no castelo de Henrik. O que deveria ser um diálogo, torna-se um longuíssimo monólogo de Henrik (bem possivelmente um reflexo de sua vaidade) perscrutando temas com a amizade, a honra e as inclinações da alma humana. Konrad não tem chance de falar. Na verdade, foram 41 anos preparando esse discurso, que, por fim, conclui que há dois tipos de espíritos: aqueles sensíveis à música, como de Krisztina, Konrad e da mãe de Henrik; e aqueles que não a compreendem. Foi a música que permitiu que Krisztina e Konrad se aproximassem, se comunicassem e se amassem sem deixar rastros que gerassem qualquer desconfiança de Henrik.


Um livro denso, que exige do leitor atenção para mergulhar nos melindres da análise feita por aquele que se acreditava racional, mas se revelou frágil quando a vida assim exigiu. Mais do que um romance, o livro se aproxima de um tratado filosófico sobre as relações humanas e sobre as complexas motivações do ser humano.


MÁRAI, Sándor. As brasas. Tradução de Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.